terça-feira, 16 de março de 2010

Minha mãe, meu amor...


A minha história de superação é muito mais da minha mãezinha do que minha, mas eu faço parte dela e, infelizmente, ela não está mais aqui para contar.

Terceira de 13 filhos, a responsabilidade bateu cedo à sua porta, tendo que trabalhar desde cedo para ajudar a família, de origem humilde. Aos 12 anos, já era ajudante de uma costureira e se viu obrigada a largar os estudos que cursou somente até o segundo ano primário.
Veio do interior aos 20 anos e se encantou pela cidade do Rio de Janeiro, onde viveu por toda sua vida e onde se passa toda sua história.

Já no Rio, trabalhou como ajudante de uma costureira francesa com quem aprendeu muito mas sofreu bastante.


Aos vinte e poucos anos, conheceu e se apaixonou por quem viria a ser o meu pai. Desquitado, não foi visto com bons olhos seu relacionamento pela minha família principalmente quando minha mãe engravidou aos 36 anos de idade.


Quando eu tinha 10 meses, no Natal de 1962, papai abandonou minha mãe por outra mulher. Passou então a viver para mim e para minha felicidade ou o que ela achava que era.


Ela trabalhava incansavelmente, principalmente a noite. Papai ajudava com um mínimo que não era o bastante para me criar, principalmente porque eu era uma criança extremamente alérgica, portadora de asma e que sofria de falta de ar, então ela precisava me levar ao hospital nas madrugadas para fazer nebulização. Graças a um amigo que tinha o mesmo sobrenome, conseguiu me colocar como sua dependente no hospital do exército.


Passávamos por muita dificuldade e lembro bem que íamos sempre na feira na hora da xepa para poder comprar alimentos mais baratos. Muitas freguesas a ajudaram bastante e levavam carne, ovos de codorna e sempre levavam tecido a mais para que ela pudesse fazer roupas para mim.


Conseguiu uma bolsa de estudos numa escola particular em frente onde morávamos, mas com a condição de que eu me mantivesse entre os melhores alunos. Aos 5 anos eu já ia sozinha para a escola - ela ficava na janela esperando eu atravessar a rua, pois a escola ficava em frente. Lembro que sempre comprávamos o uniforme escolar na Colegial, em Ipanema, mas somente quando entrava na liquidação e sempre em tamanho 3 vezes maior que o meu para que durasse mais tempo. 


Quando estava terminando o antigo "admissão", que seria a passagem para a 6ª. série, tivemos a notícia de que a escola iria fechar.


Com a ajuda da minha tia mais velha, minha mãe conseguiu uma bolsa em um dos melhores colégios do Rio que ficava em Botafogo. O problema era ter dinheiro para a passagem que nós contornamos porque eu era muito simpática e fazia amizade com todo mundo e mamãe era muito amiga de um motorista do 121. Então, conseguimos com 2 ou 3 motoristas que me levassem e trouxessem de carona para a escola e para casa.


Em 1980, eu consegui passar no vestibular para Direito. Esta seria uma forma de eu agradar meu pai (que era juiz de direito aposentado) e minha mãe, extremamente inteligente e que havia nascido para esta profissão mas que, por forças do destino, não conseguiu cursar. Eu queria fazer biologia.


Em maio deste mesmo ano, meu pai sofreu um acidente de carro e veio a falecer com sua esposa atual e uma filha adotiva. A partir de então, nossa vida se transformou financeiramente falando e eu prometi que sempre iria cuidar de minha mãe em agradecimento a tudo que ela viveu por mim.


Em 1995, mamãe começou a apresentar dificuldades de locomoção e descobrimos que ela tinha tido anteriormente um AVC e era portadora de hidrocefalia mas, devido à sua idade, não era possível colocar válvula e teríamos de nos habituar à sua nova condição. Daí em diante, sua saúde foi piorando gradativamente até ela deixar de andar, aos 78 anos. Além disso, tinha artrose em ambas as mãos, já portadora de certa demência senil e necessitava de ajuda constante para toda e qualquer atividade. Comprar sua cadeira de roda foi um dos piores momentos para mim mas que eu sabia que tinha de superar em respeito a ela e por tudo que ela passou por mim. 


Em julho de 2008, descobrimos que ela estava com púrpura. Ela foi internada diretamente no CTI e de lá só saiu para seguir sua jornada no outro plano.


Fiquei com ela durante toda sua vida até o fim e ela é o meu anjo que vive a meu lado e de quem eu morro de saudades. E, se pudesse, faria tudo de novo e muito melhor, com certeza!

2 comentários:

Mara disse...

Um linda história de superação, triste mas com um grande aprendizado de vida. Com isso vc tornou-se uma grande guerreira.
Eu mesmo de longe, que conheço bem essa sua história lhe admiro muito e amo do fundo do coração.
Estarei sempre contigo, mesmo se um dia eu não te ligar no dia do teu aniversário, tá? hehehehe
Mil beijos!

valéria disse...

Sei bem como dói a saudade. Que benção para vc ter tido a oportunidade de cuidar dela com tanto carinho.É tão gratificante sabermos que fomos boas filhas, não é?!

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